Arrancar sorrisos de passageiros e conseguir o sustento de sua família: esse é o objetivo do MC Estudante quando entra em um vagão de trem. Aos 22 anos, Carlos Cardoso luta diariamente para viver da música através de rimas improvisadas.

“Tem que estar feliz sempre. Por mais que todo mundo dentro do vagão esteja triste, eu tenho que estar feliz. Passar minha energia para eles e eu vou deixar eles felizes. Às vezes, a gente lembra muito de pedir e esquece de agradecer o que tem, por isso que não ganha mais”, disse o músico.

MC Estudante, flamenguista de Padre Miguel, na Zona Oeste do Rio, é o sexto personagem da série “Bem do Rio”.

A relação com a música foi influenciada pelo pai DJ e começou quando ele passou a frequentar “batalhas de rimas” do Rio de Janeiro. O apelido “estudante” surgiu porque, ainda adolescente, Carlos usava uniformes escolares para fazer rimas sobre matemática, história do Brasil e até mitologia grega.

“O Carlos [agora ele atende por Estudante] estudava muito – de 24 horas ele estudava 16 – e só parava para comer e dormir. O pai do Carlos é DJ e influenciou. Meu apelido virou ‘estudante’ porque no meio da rima alguém falava algum ‘bagulho’ assim, de matéria de escola e eu vinha respondendo rimando em cima do tema”, contou.

MC Estudante faz rima para passageiros dos trens do Rio — Foto: Jorge Soares/G1
MC Estudante faz rima para passageiros dos trens do Rio — Foto: Jorge Soares

Crítica social nos versos

O tempo passou e os assuntos incorporados nas rimas tomaram uma certa consciência social. Nos trens da SuperVia, o rimador versa sobre desigualdade de classes, direitos dos cidadãos, preconceitos e outros temas. Quando fala sobre o seu bairro, ele diz que o ensino é precário e as condições de lazer são poucas.

“O ensino público não é muito bom, vai na escola e os professores faltam, alguns alunos só vão para pegarem a merenda. É importante você ter um incentivo a mais ali. Ter além disso, um futebol, música e dança, mas aqui em Padre Miguel está um pouco abandonado para esse lado”, disse.

Em junho de 2019, a Justiça do Rio proibiu manifestações culturais e artísticas no interior dos transportes públicos do estado do Rio. A notícia foi recebida com preocupação pelo músico já que, segundo ele, o trem foi o espaço que ele consegue achar o sustento de sua família.

“Tem pessoas que têm direito a descansar e dormir, eu acredito. Valeu para essas pessoas, me desculpe se eu interrompo seu silêncio. Mas, não é possível que o seu direito de descansar por alguns minutos é maior que o meu direito de comer e meu direito de viver”, opina.

Mc Estudante na praça Guilherme da Silveira, em Padre Miguel — Foto: Jorge Soares/G1
Mc Estudante na praça Guilherme da Silveira, em Padre Miguel — Foto: Jorge Soares
Música diz que tem que estar sempre feliz para cativar os passageiros — Foto: Jorge Soares/G1
Música diz que tem que estar sempre feliz para cativar os passageiros — Foto: Jorge Soares

A mãe do músico sempre cobrou que ele tivesse bons rendimentos nos estudos. O jovem passava horas sobre os livros chegou a ser aprovado em alguns concursos. Ele conta que chegou a ser aprovado na prova da Escola Preparatória para Cadetes da Aeronáutica (Epcar), mas afirma que não conseguiu assumir a vaga por ter problemas de visão. Logo em seguida, ele achou na música um novo dom.

“Quando eu comecei a trabalhar no trem foi quando eu vi que tinha forças e podia viver do meu sonho. Hoje em dia é o trem que, bom ou ruim, me sustenta musicalmente. Eu vivo da música, não vivo de outra parada. Eu sou um cara que já passou para a prova da Epcar e não pude ir para a Epcar e virar piloto de avião porque eu tenho um grau de miopia além do necessário”, contou.

Aos poucos, algumas conquistas estão aparecendo como o lançamento de sua música “Calmo e Tranquilin”. O próximo passo, segundo MC Estudante contou ao G1, é subir num palco para cantar uma música sua e a plateia completar em coro.

“Meu sonho hoje é fazer um show, puxar uma música minha e todo mundo cantar junto comigo”.

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